Opinião / Eduardo Santos
Direita ou esquerda: rótulos de atraso na política brasileira
OPINIÃO/COLUNA - EDUARDO SANTOS Vivemos há mais de uma década presos a uma dicotomia que simplifica demais a realidade: de um lado a "esquerda", do outro a "direita". Qualquer discussão pública, seja sobre economia, segurança, educação ou costumes, rapidamente vira um cabo de guerra ideológico. Quem não se encaixa perfeitamente em um dos dois campos é acusado de incoerência, de ser "isentão" ou, pior, de traição.
Mas e se esses rótulos, longe de esclarecerem, estiverem atrasando o Brasil?
A origem da divisão esquerda-direita remonta à Revolução Francesa, quando os defensores do rei sentavam-se à direita da assembleia e os revolucionários à esquerda. Fazia sentido no século XVIII. No Brasil de 2026, porém, a etiqueta virou caricatura. Políticos e eleitores usam "esquerda" e "direita" como uniforme de torcida organizada, não como mapa de ideias. O resultado é previsível: diálogo vira gritaria, nuance vira suspeita e solução vira concessão imperdoável.
Pesquisas recentes mostram o quanto essa polarização artificial está desconectada da maioria da população. Mais de 50% dos brasileiros não se identificam fortemente com nenhum dos extremos — nem com a esquerda militante, nem com a direita radical. São pessoas que querem emprego, saúde que funcione, escola de qualidade, segurança nas ruas e menos corrupção, sem necessariamente jurar fidelidade eterna a um campo ideológico. Elas flutuam entre propostas de diferentes lados dependendo do tema. E, no entanto, o debate público as obriga a escolher um time, como se política fosse campeonato.
Enquanto isso, os verdadeiros problemas do país seguem sem solução profunda: um Estado inchado que gasta mal, uma carga tributária que sufoca a produtividade, uma educação que não forma para o futuro, uma segurança pública que perde para o crime organizado. Esses desafios exigem pragmatismo, experimentação e capacidade de aprender com erros — qualidades que morrem sufocadas quando tudo é reduzido a "nós contra eles".
Não se trata de negar diferenças reais. Existem visões distintas sobre o papel do Estado, sobre liberdade individual versus igualdade distributiva, sobre valores culturais e morais. O problema é que os rótulos viraram caixas-pretas: você entra nelas e perde a capacidade de questionar suas próprias premissas. A "esquerda" vira sinônimo automático de estatismo e assistencialismo (mesmo quando defende pautas liberais em outros campos); a "direita" vira código para conservadorismo moral e mercado irrestrito (mesmo quando apoia protecionismo ou intervencionismo seletivo).
O atraso maior está aí: em vez de discutir o que funciona ou não para o Brasil real, gastamos energia classificando pessoas e ideias em gavetas ideológicas. Enquanto isso, o mundo avança com soluções híbridas — países que combinam forte rede de proteção social com alta liberdade econômica, que preservam tradições sem fechar os olhos para direitos individuais, que investem em tecnologia sem demonizar o setor privado.
Chegou a hora de aposentar esses rótulos como critério principal de julgamento. Não precisamos abolir as diferenças de visão de mundo, mas sim parar de tratá-las como trincheiras intransponíveis. O Brasil não vai melhorar enquanto o debate continuar preso a arquétipos do século XX. Precisamos de menos torcida e mais engenharia política: quais políticas geram resultado mensurável? O que pode ser ajustado sem trair princípios? Como construir maiorias em torno de objetivos concretos, em vez de símbolos?
Direita ou esquerda? Talvez a pergunta certa seja outra: continuaremos presos a rótulos que nos dividem ou teremos coragem de discutir o futuro do país sem uniforme?
O atraso não está na ideologia de cada um. Está na preguiça de pensar além dela.
Por; Eduardo Santos



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