Opinião / Eduardo Santos
Pivetta e a sombra da agressão: inelegível moralmente
Vice-governador é cotado como sucessor de Mauro Mendes em 2026, mas episódio de 2021, que envolveu indiciamento, medida protetiva e relato detalhado de violência, reacende debate sobre ficha limpa moral para cargos públicos.
O vice-governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos), consolida-se como um dos principais pré-candidatos ao Palácio Paiaguás nas eleições de 2026. Com apoio declarado do atual governador Mauro Mendes e articulação para uma chapa forte na Câmara Federal — inclusive com possível filiação de nomes como Juarez Costa —, Pivetta defende a continuidade da gestão e busca ampliar alianças, inclusive mirando o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No entanto, o nome do político traz à tona um episódio grave do passado que contrasta fortemente com a imagem de liderança que tenta projetar: acusações de violência doméstica contra sua então esposa, a advogada Viviane Cristina Kawamoto Pivetta.
Em julho de 2021, durante uma viagem a Itapema (SC), Viviane acionou a Polícia Militar relatando agressões físicas por parte do marido. Em áudio obtido pela imprensa, ela descreveu ter sido chamada para “orar”, momento em que teria iniciado a violência, com tapas, puxões de cabelo e batidas da cabeça contra o sofá. A PM registrou o caso como violência contra a mulher, e Pivetta foi preso em flagrante por lesão corporal leve, tendo pago fiança para ser liberado.
A ex-mulher concedeu entrevista exclusiva ao programa Fantástico (Globo), em agosto de 2021, detalhando as agressões e exibindo fotos de lesões no rosto e no corpo. A Justiça concedeu medida protetiva contra Pivetta, proibindo-o de se aproximar da vítima. Ele foi indiciado pela Polícia Civil de Santa Catarina, mas negou veementemente as acusações, afirmando que nunca praticou violência física ou psicológica e que houve uma troca de agressões no contexto de uma crise conjugal.
O processo acabou arquivado pela Justiça catarinense em 2022, após pedido de arquivamento do Ministério Público, e não resultou em condenação criminal. Pivetta e sua defesa classificaram o episódio como uma “crise conjugal” e afirmaram que tomariam medidas contra narrativas falsas.
Apesar do arquivamento, o caso voltou a ser lembrado em debates públicos sobre violência contra a mulher em Mato Grosso, especialmente em momentos de alta visibilidade política. Críticos argumentam que, independentemente de condenação final, o fato de um alto gestor público ter sido indiciado, ter gerado medida protetiva e ter sido alvo de denúncia detalhada com elementos probatórios (como áudio e fotos) levanta questionamentos éticos graves.
Agressores de mulheres não deveriam nem se candidatar
A Lei Maria da Penha (11.340/2006) e diversas legislações posteriores reforçam a gravidade da violência doméstica e familiar contra a mulher, mas não impõem inelegibilidade automática por acusação ou indiciamento sem condenação transitada em julgado. A Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/2010) prevê inelegibilidade por condenações criminais em certas hipóteses, mas casos arquivados ou sem trânsito em julgado não geram impedimento legal automático.
Entretanto, cresce no debate público a cobrança por uma barreira moral mais rígida: quem já respondeu por acusações críveis de agressão contra mulher não deveria almejar cargos de alta representação, como o de governador — especialmente no Palácio Paiaguás, símbolo máximo do poder executivo em Mato Grosso.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres e parte da sociedade civil defendem que a tolerância zero à violência de gênero deve começar na escolha de representantes. “Agressores de mulheres não poderiam nem se candidatar a nenhum cargo, principalmente ao de governador”, resume o sentimento expresso por ativistas e cidadãos que acompanham o caso.
Enquanto Pivetta avança nas articulações políticas para 2026, o histórico de 2021 segue como um ponto sensível que pode influenciar a percepção do eleitorado, sobretudo entre mulheres e grupos que priorizam a pauta de gênero na política.
O Portaldomatonews procurou a assessoria de Otaviano Pivetta para posicionamento sobre o tema e a pré-candidatura, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.





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