Opinião / Eduardo Santos
Enquanto Cuiabá afunda em buracos, sujeira e caos na saúde, prefeito Abílio Brunini viaja aos EUA: que benefícios a população vai ter com isso?
A capital mato-grossense vive um momento de evidente abandono. Ruas cheias de buracos, avenidas e locais públicos tomados pelo mato, lixo acumulado e falta de uma política efetiva de limpeza. Na saúde, o quadro é ainda mais grave: postos sem médicos, incluindo pediatras ausentes em bairros inteiros, e relatos constantes de caos no atendimento. Enquanto isso, o prefeito Abílio Brunini (PL) embarcou para os Estados Unidos em viagem de três dias para participar de uma conferência sobre inovação na construção civil.
A viagem ocorreu entre os dias 10 e 13 de março de 2026, com destino a Dallas, no Texas, para o evento “Advancing Prefabrication: Structures & Façades 2026”. O prefeito publicou vídeos nas redes sociais exibindo infraestrutura “de primeiro mundo” e afirmou que arcou com as despesas do próprio bolso, usando milhas aéreas. A vice-prefeita Vânia Rosa (MDB) não assumiu formalmente o cargo durante o período curto de ausência.
Moradores questionam: enquanto a cidade enfrenta problemas básicos que afetam o dia a dia de milhares de cuiabanos, qual o retorno concreto dessa viagem para a população?
Os problemas urbanos são visíveis em toda a capital. Buracos proliferam nas vias principais, avenidas importantes estão sujas e malcuidadas, e o mato cresce livremente em praças e calçadas. O próprio prefeito já reconheceu publicamente a dificuldade para realizar serviços de tapa-buraco e zeladoria, atribuindo parte da crise à escassez de mão de obra – inclusive citando o Bolsa Família como um dos fatores que dificultam a contratação de trabalhadores. Recentemente, a gestão lançou o aplicativo “Cuiabá Smart” para que a população registre queixas, mas muitos moradores relatam que as demandas seguem sem solução rápida.
Na saúde, o cenário é ainda mais preocupante. Postos de saúde operam com déficits crônicos de profissionais. Relatos de falta de pediatras em unidades básicas são frequentes, com famílias obrigadas a buscar atendimento privado ou enfrentar longas esperas. O Conselho Regional de Medicina (CRM-MT) já criticou a gestão por falhas no sistema, incluindo problemas de agendamento e sobrecarga nas unidades. Hospitais também enfrentaram episódios de desabastecimento, como falta de fornecimento de refeições por dívidas acumuladas.
Diante desse quadro, a pergunta que não cala é: que benefícios reais essa viagem aos Estados Unidos vai trazer para a população de Cuiabá? O prefeito menciona busca por inovação em construção prefabricada, que poderia, em tese, ajudar em obras de pavimentação e infraestrutura. Mas, para o cidadão comum que enfrenta buracos na porta de casa, sujeira nas ruas e fila interminável no posto de saúde, o retorno parece distante.
E o pediatra que falta no posto do meu bairro? Será que vão trazer um lá dos EUA?
Enquanto a cidade espera ações concretas e urgentes, a viagem do prefeito gera críticas até mesmo dentro do cenário político local, com deputados da oposição questionando os reais motivos do deslocamento. A população, por sua vez, segue cobrando resultados: ruas limpas, saúde funcionando e uma capital que não pareça abandonada.
A gestão municipal ainda não se manifestou sobre prazos para resolver os problemas estruturais citados. O portal aguarda posicionamento oficial para atualizações.





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