Dinheiro pra conseguir que chegue água nas torneiras não tem, mas pra shows nacionais no aniversário de Várzea Grande tem
Enquanto bairros seguem com racionamento e torneiras secas, prefeitura planeja festa com artistas como Natanzinho Lima, Lauana Prado e Simone Mendes para celebrar os 159 anos da cidade
Enquanto bairros seguem com racionamento e torneiras secas, prefeitura planeja festa com artistas como Natanzinho Lima, Lauana Prado e Simone Mendes para celebrar os 159 anos da cidade
A população de Várzea Grande continua enfrentando um dos problemas mais antigos e graves da cidade: a falta de água nas torneiras. Relatos de bairros inteiros sem abastecimento por dias, reservatórios operando no limite e perdas de até 45% na distribuição da água tratada são rotina há anos – e 2026 começou exatamente igual.
Moradores rodam a cidade atrás de carro-pipa, compram água mineral para consumo básico e convivem com a frustração de pagar contas em dia de um serviço que não chega. A crise hídrica, agravada por redes antigas, vazamentos constantes e falta de investimentos consistentes no Departamento de Água e Esgoto (DAE), foi reconhecida pela própria prefeita Flávia Moretti (PL) em diversas ocasiões. Em 2025, a gestão chegou a decretar medidas emergenciais, pediu recursos ao Estado e chegou a discutir privatização, mas a normalização do abastecimento segue distante.
No entanto, enquanto o “sonho do várzea-grandense é ter água sempre na torneira” (palavras da própria prefeita em novembro de 2025), a administração municipal prepara uma grande festa para o aniversário de 159 anos da cidade, em 15 de maio de 2026. Segundo apurações publicadas por veículos como Olhar Conceito e Olhar Direto, a prefeita Flávia Moretti planeja shows com atrações nacionais de peso: os nomes mais cotados são Natanzinho Lima, Lauana Prado e Simone Mendes.
O evento seria gratuito para o público em geral, com possibilidade de venda de camarotes para ajudar na arrecadação, mas ainda sem local definido. A programação exata e os valores dos cachês não foram oficialmente confirmados pela prefeitura até o momento.
O contraste gera revolta entre parte da população. Nas redes sociais, comentários questionam: “E água você vê depois?”, “Várzea Grande não precisa de show, precisa de água na torneira” e “Enquanto isso, cadê a água?”. Em 2025, a própria gestão cancelou planos de shows no aniversário alegando prioridades como a crise financeira e hídrica – o que torna o anúncio atual ainda mais polêmico.
Eventos semelhantes em Mato Grosso e em outras cidades do interior mostram que cachês de artistas desse porte costumam variar entre R$ 500 mil e R$ 1,5 milhão por apresentação (como visto em contratações recentes em Sorriso e Várzea Alegre). Se confirmados três shows nacionais, o investimento público pode facilmente ultrapassar R$ 2 milhões – valor que, para muitos moradores, poderia ser direcionado a obras urgentes no sistema de abastecimento, como substituição de redes, redução de perdas e ampliação de ETA's.
A prefeitura ainda não se manifestou oficialmente sobre o orçamento da festa nem sobre como conciliar os gastos com as demandas prioritárias de saneamento básico. A reportagem aguarda posicionamento oficial da administração.
Enquanto a data se aproxima, a pergunta que fica no ar é simples: em Várzea Grande, o que comemora mais aniversário – a fundação da cidade ou a promessa de água encanada que nunca chega?



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