Microfone aberto expõe possível conflito de interesses em licitação do Hospital Regional de Pontes e Lacerda
Imagem blogdoeduardosantos No calor da comemoração pela assinatura da ordem de serviço do Hospital Regional de Pontes e Lacerda, o microfone não perdoou. Durante o evento realizado nesta terça-feira (17 de março), o deputado estadual **Valmir Moretto** (Republicanos-MT) foi flagrado com o áudio ainda ligado, revelando o que soa como uma ligação direta com uma das empresas vencedoras da licitação.
Sem perceber que o microfone permanecia aberto, Moretto comentou o resultado da concorrência e soltou a frase: “Duas, a Agrimat e uma a minha”. Em seguida, em tom de satisfação, completou: “Tá autorizado!”.
O vídeo com o áudio vazou rapidamente, viralizou nas redes sociais e foi encaminhado por um internauta ao portal de notícias. O que começou como uma celebração pela obra — um hospital aguardado há anos na região Sudoeste de Mato Grosso — virou motivo de polêmica e suspeitas de irregularidades.
Deputado com histórico de emendas para o hospital
Valmir Moretto, natural de Palotina (PR) e radicado em Mato Grosso desde 1986, foi prefeito de Nova Lacerda por dois mandatos e está em seu segundo mandato como deputado estadual pelo Republicanos. Ele tem forte ligação política com Pontes e Lacerda e a região Oeste do estado. Nos últimos anos, o parlamentar destinou emendas parlamentares e atuou ativamente para viabilizar o Hospital Regional, inclusive anunciando editais de chamamento público para aquisição de terreno e celebrando os avanços da obra, orçada em dezenas de milhões de reais.
A empolgação do momento é compreensível do ponto de vista político: trata-se de uma entrega importante para a população local, com promessa de melhoria no atendimento de saúde. No entanto, a aparente confissão de que uma das cotas da licitação seria “a minha” levanta questionamentos graves sobre conflito de interesses.
O que diz a legislação
A legislação brasileira é clara ao proibir que parlamentares firmem ou tenham participação direta em contratos com o poder público durante o exercício do mandato. A Constituição Federal e normas de improbidade administrativa vedam situações em que o agente político possa se beneficiar pessoalmente de decisões que ele próprio ajuda a viabilizar ou fiscalizar.
Embora a Lei de Conflito de Interesses (12.813/2013) se aplique primordialmente ao Poder Executivo federal, princípios semelhantes valem para deputados estaduais por força da Constituição Estadual, da Lei de Improbidade Administrativa (8.429/1992) e do Código de Ética parlamentar. Parlamentares não podem atuar como fornecedores ou sócios ocultos em obras ou serviços contratados pelo Estado, sob risco de configurar enriquecimento ilícito, violação ao princípio da impessoalidade e até crime de responsabilidade.
Especialistas em direito público consultados por veículos de Mato Grosso apontam que o caso precisa ser investigado pelo Ministério Público Estadual (MPE-MT), Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) e pela própria Assembleia Legislativa. Caberá apurar se houve participação efetiva do deputado ou de pessoas ligadas a ele na empresa Agrimat ou em eventual “terceira” cota mencionada, se a licitação respeitou a competitividade e se houve prejuízo aos cofres públicos.
Repercussão e próximos passos
Nas redes sociais, o áudio gerou indignação e memes, com internautas classificando o episódio como “confissão no automático”. O caso já circula em grupos políticos e páginas de notícias regionais, como o VG Notícias, que publicou a primeira reportagem detalhada.
Até o momento, não há manifestação oficial do deputado Valmir Moretto sobre o áudio. O Governo do Estado de Mato Grosso também não se pronunciou sobre eventual revisão da licitação ou abertura de sindicância.
O Hospital Regional de Pontes e Lacerda é uma obra esperada pela população e representa investimento significativo em saúde pública. Por isso, é fundamental que as investigações sejam rápidas, transparentes e isentas, para que o projeto não seja comprometido e a sociedade tenha clareza sobre a lisura do processo.
O microfone, muitas vezes, revela o que o discurso oficial esconde. Resta agora às instituições fazerem o seu papel.
O portal aguarda posicionamento do deputado e dos órgãos de controle para atualizações.






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