Motorista de ônibus que lida com preconceito já venceu câncer
Motorista de Coletivo, Ana Luiza Pereira Silva
“Tem passageiro que não sobe no ônibus por não aceitar mulher ao volante”, diz Ana Luiza, 50 anos
A motorista de ônibus do transporte coletivo, Ana Luiza Pereira Silva, 50, é dessas profissionais que, diariamente se vestem de coragem para enfrentar não só os desafios naturais da vida.
Como acontece com a maioria das mulheres, ela precisa provar que é capaz.

Quase diariamente, Ana Luiza vive situações de preconceito, vindo tanto de mulheres quanto de homens.
Por diversas vezes, conta ela, ouviu pessoas questionando sua capacidade profissional: “Ah... Motorista mulher? Não vou entrar”, dizem alguns passageiros e passageiras, em paradas de ônibus.
Ela também já não se surpreende mais com a aglomeração de homens, durante suas manobras ao volante.
As aglomerações, segundo ela, acontecem em questão de segundos.
Os homens se juntam nos locais em que muitos deles têm certeza de que ela não é capaz de passar com o ônibus.
“Os homens assistem, não para ajudar, mas para verem se realmente sou boa. Se tenho capacidade”, analisa Ana Luiza.
Desde 2019, Ana Luiza enfrenta um câncer de tireoide, que já lhe impôs quatro cirurgias.
Por pouco, a doença não a afastou em definitivo da profissão que tanto gosta.
“Por causa da doença, no ano passado, o INSS (Previdência Social) queria me incluir no programa de readaptação profissional”, conta ela.
Se isso ocorresse, Ana Luiza seria desviada da função e passaria a trabalhar, por exemplo, no setor administrativo da empresa.
“Não aceitei. Já estou curada. Voltei a dirigir ônibus há dois meses e está tudo bem”, destaca ela, sentada atrás do volante.
Caso fosse readaptada, a categoria da CNH de Ana Luiza seria rebaixada.
A partir disso, ela não poderia mais dirigir veículos de grande porte.
Dirigir caminhões e ônibus é o que ela gosta e sabe fazer bem, desde a infância.
Ana Luiza apreendeu dirigir caminhões aos 10 anos, com o pai.
Aos 24, já era motorista de uma Van do programa especial de transporte de deficientes, em Cuiabá
.Ela até tentou se formar em um curso universitário, como o pai queria
.Ingressou em duas faculdades, de Fisioterapia e Serviço Social, mas não concluiu nenhuma.
“Parei faltando um ano para me formar fisioterapeuta para cuidar do meu pai", revela.
Depois, começou Serviço Social, fez um semestre e parou, ao descobrir que estava grávida.
Filha única, há 14 anos, Ana Luiza perdeu o pai. Ele morreu vítima de leucemia.
Em 2019, ficou órfã de mãe também. Aos 81 anos, a mãe dela morreu vítima da Covid-19.
Agora, é ela e a filha, que hoje tem 13 anos, estão vivendo uma pela outra.
“A vida não é fácil. Ser mulher, mãe, trabalhadora, dona de casa, cuidar do cachorro... São muitas coisas”, avalia.
“Passar por tudo que a gente passa não é fácil mesmo. Mas, sabe, a mulher sempre dá jeito”, completa.
Ana Luiza nunca passou por situação de violência doméstica, mas está certa de que essa é uma coisa que jamais toleraria.
“Sou grande e forte, talvez isso os intimide”, analisa ela
.“O que os homens não sabem é que também sou boa de briga”, conclui.



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